
Talvez, um dia eu conte como é ser pássaro e a brisa ser essa rota do voo para além dos muros. As flores se abrem e ainda é tarde. Logo, o noturno virá tomar conta do quintal. A ave de todo dia é insistente no canto de eubemquete-viquasetevi e o céu parece se inclinar em um olho torto dentro da lente. O desenho a lápis da flor na toalha ganha cores nas linhas bordadas… o gesto terno da xícara a receber o café para além das horas. A pele virada do avesso não cabe no tato. As digitais estranham a memória do dia. Eram tantos os dias atrás que parecem outras eras. Na parede, a asa enleada de ave e o gesto simples de querer voar.
A chuva oculta na previsão que falha, o vento a espantar o trovão que não veio e o carro do churros a vender a doce mistura do chocolate ao leite, em uma voz que parece saída de uma história da infância. Derramo ternura pelo pássaro, que cede ao encanto do poente e some noite adentro em memória da lua que permanece acesa no coração dele em sua rota dissimulada rente ao chão, nas poças d’água, dos restos do que molhei o jardim.
Mariana Gouveia






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