*frase retirada do livro Ao vento de todo dia – da prosa de Adriana Aneli
Bença, Pai,
Hoje me peguei revirando as fotos antigas do baú. Já faz mais de um ano que você se foi e fiquei com aquelas perguntas que a gente fazia um para o outro e que a gente mesmo sabia que não tínhamos respostas… Será que hoje você teria?
Você já viu a chuva daí, pai? E um arrozal pronto para colher? O cheiro do cafezal é o mesmo que o daqui? E o vento, pai…ele surge por esses lados daí? Às vezes, me pego pensando em cada pergunta que eu faria se pudesse. Mas, acho que a primeira seria sobre as estrelas. De que tamanho são? As cadentes são mesmo por causa de crianças brincando aí, nesse céu de meu Deus?
Será que você encontrou minha mãe e a abraçou como antes você fazia quando chegava da roça? E o Manoel, pai… já o encontrou com um capim no canto da boca? Tem capim aí? É verdade que o cheiro daí lembra o campo dos girassóis?
Sabe, pai, aconteceram muitas coisas depois que você se foi. Encontrei meus irmãos e caminhei de novo pelo sítio em despedida. Bebi o leite no curral que o Tuca tirou e fotografei vários cogumelos gigantes… até um tatu apareceu e permaneceu nos arredores até o dia que vim embora. Também comi a comida feita no fogão de lenha e ouvi pela primeira vez o som dos vagalumes em uma noite escura, pai… Gravei para Lunna ver e chorei sozinha para além dos currais.
Também ouvi de novo o riacho em sua cantilena alcançando as margens… de longe, os risos das crianças de agora, brincando de esconde-esconde. São esses ruídos, pai, que renovam minhas energias em momentos de saudades e de solidão. Você sente solidão por aí? Dá pra tomar o seu café igual era aqui?
Vou guardar as coisas no baú, pai e seguir a rotina do dia… Sabe que comecei a escrever essa carta hoje cheia de perguntas, porque de repente me perguntei onde você estaria. Acho que um dia, eu descubro essas respostas.
Beijo,
sua filha
Mariana
Source: Segunda, 4 — *Eu me apego aos pequenos ruídos familiares. – O Outro Lado
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