Mulher proibida – O Outro Lado

Minha querida Gilka,

Da última vez que te escrevi… a aldeia estava em fogo. Havia muito cinza e tentávamos salvar animais e as plantações. Muita coisa mudou desde então. A aldeia reagiu e hoje, tudo floresce. Até minha ligação com a aldeia mudou. Ficou restrita ao simples acompanhamento através de amigos, embora o laço seja para sempre.

Hoje, o que assola o mundo não tem cor. É um vírus – que alguns dizem ser inventado e que ignoro para não brigar com parentes via mensagens das redes sociais – você imaginaria rede sociais no seu tempo? Você seria crucificada, pode apostar!

Daqui de onde estou, me sinto privilegiada. Vejo a lua, converso com o sol, confabulo com os pássaros, traços rotas imaginárias em um corpo que nunca visitei. Danço com o vento. Leio livros de poesias…  rasgo verbos sem nexos com as joaninhas. E só descubro o mundo lá fora através das manchetes de jornais e sites que relatam sobre um vírus que faz vítimas nos cinco continentes.

Por aqui, o pé de ipê já deu duas floradas, desde a última carta e nasceu mais um tanto de flores que guardei os nomes em um pote…  para fazer a bendita plaquinha e colar depois. Mas sempre as chamo de filha… é uma coisa que vem da infância e sabe-se lá quando vou perder essa mania. Porque aqui, tudo vira filha ou filho, seja bicho, pássaro, árvore, flor ou vento… e reza.

Com a lua não… Com a lua, traço conversas rente a pele. Me descubro mulher, a mesma que devora os poemas e canta. Sou a que se envolve e grita a liberdade, mas por enquanto, dentro das paredes dos meus muros.

Beijo,
Mariana
Carta publicada no Projeto Coletivo Mulher Proibida
Scenarium Livros Artesanais

Source: Mulher proibida – O Outro Lado