Carlos Drummond de Andrade

Pensamentos.me/VEM comigo!

Não cantarei amores que não tenho,

e, quando tive, nunca celebrei.

Não cantarei o riso que não rira

e que, se risse, ofertaria a pobres.

Minha matéria é o nada.

Jamais ousei cantar algo de vida:

Se o canto sai da boca ensimesmada,

é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa,

nem sabe a planta o vento que a visita.

Ou sabes?Algo de nós acaso se transmite,

mas tão disperso, e vago, tão estranho,

que, se regressa a mim que o apascentava,

o ouro suposto é nele cobre e estanho, estanho e cobre,

e o que não é maleável deixa de ser nobre,

nem era amor aquilo que se amava.

Nem era dor aquilo que doía;

ou dói, agora, quando já se foi?

Que dor se sabe dor, e não se extingue?

( Não cantarei o mar: que ele se vingue

de meu silêncio, nesta concha. )

View original post 267 more words